O Que Significa e Quais São as Possibilidades de Comunicação?

Entenda o que significa ser autista não verbal, conheça possibilidades de comunicação além da fala e saiba como a CAA e a ABA podem favorecer a autonomia.
“Meu filho não fala. Será que ele nunca vai falar?”
Essa é uma das perguntas que mais angustiam famílias diante de uma criança autista com pouca ou nenhuma fala funcional.
A ausência de fala pode representar um desafio importante para a comunicação, principalmente quando a criança também apresenta dificuldades para utilizar gestos, expressões, figuras ou outros recursos comunicativos. Entretanto, não falar não significa não ter capacidade de se comunicar.
Uma pessoa pode comunicar desejos, necessidades, sentimentos, recusas, escolhas e interesses por diferentes meios. A fala é uma dessas possibilidades — mas não é a única.
No Transtorno do Espectro Autista (TEA), encontramos grande variabilidade no desenvolvimento da linguagem. Algumas pessoas desenvolvem fala funcional espontaneamente; outras apresentam linguagem limitada; algumas utilizam predominantemente formas alternativas ou aumentativas de comunicação.
Por isso, compreender o que significa ser uma pessoa autista com pouca ou nenhuma fala funcional é fundamental para que família, escola e profissionais não esperem simplesmente que a fala apareça, mas também ensinem e ofereçam meios eficazes de comunicação desde o início.
O que significa “não verbal” no autismo?
O termo “não verbal” é bastante utilizado no cotidiano, mas precisa ser empregado com cuidado.
Na prática clínica, pode referir-se a pessoas que não utilizam fala oral funcional ou que apresentam repertório verbal muito limitado para atender às demandas comunicativas do cotidiano.
Entretanto, ausência de fala não significa ausência de linguagem, cognição, intenção comunicativa ou compreensão.
Uma criança que não fala pode, por exemplo:
- apontar para o que deseja;
- conduzir um adulto até determinado local;
- entregar um objeto;
- utilizar gestos;
- escolher entre duas figuras;
- utilizar uma prancha de comunicação;
- utilizar um aplicativo;
- produzir vocalizações com função comunicativa.
Portanto, é fundamental diferenciar fala de comunicação.
Fala, linguagem e comunicação são a mesma coisa?
Não.
Embora estejam relacionadas, são habilidades diferentes.
Fala
É a produção oral de sons e palavras.
Linguagem
Envolve um sistema de símbolos utilizado para compreender e transmitir informações.
Comunicação
É o processo pelo qual uma pessoa transmite algo a outra.
Essa distinção é extremamente importante no autismo.
Uma criança pode não apresentar fala oral, mas ainda assim possuir intenção comunicativa e desenvolver um sistema eficiente de comunicação.
O que a Análise do Comportamento entende por comunicação?
A Análise do Comportamento possui uma contribuição particularmente importante para compreender a linguagem.
Em Verbal Behavior, Skinner (1957) propôs analisar o comportamento verbal a partir de sua função, considerando as condições ambientais nas quais ele ocorre e as consequências que o mantêm.
Nesse modelo, a comunicação não é definida apenas pela forma física da resposta.
Uma criança dizer:
“Água”
e uma criança entregar uma figura representando água podem ter a mesma função comunicativa: solicitar água.
O que muda é a topografia da resposta.
Essa perspectiva é extremamente importante porque permite ensinar comunicação funcional mesmo quando a fala oral ainda não está disponível.
A criança não fala ou não possui comunicação funcional?
Essa é uma pergunta clínica muito importante.
Uma criança pode apresentar ausência de fala, mas possuir diferentes formas de comunicação.
Por outro lado, uma criança pode falar algumas palavras e ainda apresentar dificuldades importantes de comunicação funcional.
Por exemplo, pode repetir palavras ou frases, mas não conseguir:
- pedir ajuda;
- fazer escolhas;
- recusar adequadamente;
- informar dor;
- solicitar uma pausa;
- expressar desconforto.
Por isso, avaliar apenas quantas palavras a criança fala é insuficiente.
Precisamos perguntar:
Para que ela utiliza a comunicação?
Quando o comportamento vira comunicação
Imagine uma criança que deseja um brinquedo, mas ainda não consegue pedir.
Ela pode:
- chorar;
- gritar;
- puxar o adulto;
- bater;
- jogar objetos.
À primeira vista, podemos observar apenas um “comportamento-problema”.
Mas a Análise do Comportamento nos convida a investigar sua função.
Carr e Durand (1985) demonstraram, em um estudo clássico, que comportamentos considerados problemáticos podem desempenhar funções comunicativas e que o ensino de formas alternativas de comunicação pode contribuir para sua redução.
Isso deu origem a uma importante linha de intervenção conhecida como Treino de Comunicação Funcional (FCT).
A lógica é simples:
Em vez de apenas tentar eliminar o comportamento, ensinamos uma forma mais eficiente de comunicar aquilo que a pessoa precisa.
A Comunicação Aumentativa e Alternativa pode ajudar?
Sim
A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) reúne estratégias e recursos destinados a complementar ou substituir temporariamente ou permanentemente a comunicação oral.
Entre os recursos estão:
- gestos;
- sinais;
- fotografias;
- símbolos;
- pranchas de comunicação;
- sistemas de troca de figuras;
- aplicativos;
- dispositivos geradores de fala.
A American Speech-Language-Hearing Association (ASHA) reconhece a CAA como um conjunto de estratégias utilizadas para apoiar pessoas com necessidades complexas de comunicação.
A escolha do recurso deve ser individualizada.
Não existe uma única prancha ou aplicativo que funcione para todas as pessoas autistas.
A CAA impede a criança de falar?
Não
Esse é provavelmente um dos maiores mitos relacionados à comunicação no autismo.
Uma revisão realizada por Millar, Light e Schlosser (2006) analisou os efeitos de intervenções de CAA sobre a produção da fala em indivíduos com deficiências do desenvolvimento.
Os resultados não sustentaram a ideia de que a CAA prejudique o desenvolvimento da fala.
Pelo contrário, em alguns casos foram observados ganhos na produção vocal e verbal.
Portanto, utilizar uma prancha, figuras ou dispositivo de comunicação não significa desistir da fala.
Significa garantir que a criança tenha uma maneira funcional de se comunicar enquanto seu repertório oral é desenvolvido — quando esse desenvolvimento for possível.
E se a criança nunca desenvolver fala?
Essa é uma questão delicada e precisa ser tratada com honestidade.
Não é possível prever com absoluta certeza o desenvolvimento futuro da fala de uma criança autista individualmente.
Algumas crianças desenvolvem linguagem oral posteriormente; outras permanecem utilizando predominantemente formas alternativas de comunicação.
Por isso, o objetivo terapêutico não deve depender exclusivamente da expectativa de que a criança “comece a falar”.
O objetivo principal deve ser:
garantir comunicação funcional.
Uma pessoa que consegue pedir, recusar, escolher, conversar, expressar sentimentos e participar das decisões sobre sua própria vida possui um repertório comunicativo muito mais significativo do que alguém que apenas repete palavras sem função comunicativa.
O que ensinar primeiro?
Não existe uma sequência universal aplicável a todas as crianças.
A avaliação individual é indispensável.
Entretanto, habilidades comunicativas funcionalmente relevantes podem incluir:
Pedir
- “Quero água.”
- “Quero brincar.”
Recusar
- “Não quero.”
- “Acabou.”
Pedir ajuda
- “Ajuda.”
Fazer escolhas
- “Quero esse.”
- “Quero o azul.”
Solicitar pausa
- “Parar.”
- “Descanso.”
Expressar desconforto
- “Está doendo.”
- “Barulho.”
- “Não gostei.”
Essas habilidades podem ter impacto enorme na autonomia cotidiana.
A comunicação também precisa incluir emoções
Um ponto frequentemente esquecido é que comunicação não serve apenas para pedir objetos.
A criança também precisa aprender a comunicar estados internos.
Por exemplo:
- “Estou triste.”
- “Estou bravo.”
- “Estou cansado.”
- “Tenho medo.”
- “Não quero.”
- “Preciso de ajuda.”
Essa habilidade pode contribuir para reduzir situações nas quais o sofrimento emocional é expresso exclusivamente através de comportamentos intensos.
O papel da família
A família é fundamental para que a comunicação seja generalizada para diferentes ambientes.
Não adianta utilizar uma prancha apenas durante a sessão terapêutica se a criança não tem acesso a ela em casa, na escola e em outros contextos importantes.
Os familiares podem:
- disponibilizar o recurso comunicativo;
- oferecer oportunidades de escolha;
- modelar o uso das figuras ou símbolos;
- responder às tentativas comunicativas;
- evitar antecipar constantemente aquilo que a criança deseja.
Um cuidado importante:
não é necessário esperar a criança entrar em crise para oferecer comunicação.
Ela precisa ter oportunidades de comunicar-se também em situações tranquilas.
E o papel da escola?
A comunicação precisa acompanhar a criança durante sua rotina escolar.
Imagine uma criança que consegue pedir “água” durante a terapia, mas não possui nenhuma forma de fazer esse pedido na escola.
Nesse caso, a habilidade ainda não foi verdadeiramente generalizada.
A escola pode contribuir disponibilizando:
- prancha individual;
- cartões de comunicação;
- agenda visual;
- símbolos para atividades;
- recursos para escolhas;
- estratégias combinadas com a equipe terapêutica.
A inclusão comunicativa é parte da inclusão escolar.
Comunicação funcional não significa apenas reduzir crises
É importante evitar uma visão excessivamente instrumental da comunicação.
Ensinar comunicação não deve ter como único objetivo diminuir comportamentos considerados inadequados.
A comunicação também deve permitir que a pessoa:
- faça escolhas;
- demonstre preferências;
- compartilhe interesses;
- participe de conversas;
- estabeleça relações;
- exerça autonomia.
Em outras palavras, comunicação é também participação social.
Considerações Finais
Ser uma pessoa autista com pouca ou nenhuma fala funcional não significa não possuir pensamentos, sentimentos, desejos ou necessidade de interação.
O maior desafio não é simplesmente fazer a criança falar.
É garantir que ela tenha uma forma eficaz de dizer o que precisa, deseja, sente e pensa.
A fala pode surgir, desenvolver-se ou permanecer limitada. Não podemos prever individualmente todos os percursos.
Mas podemos — e devemos — oferecer oportunidades de comunicação desde cedo.
A Comunicação Aumentativa e Alternativa, o ensino de comunicação funcional e as intervenções baseadas na Análise do Comportamento podem desempenhar papel importante nesse processo quando utilizados de maneira individualizada e fundamentada cientificamente.
No final, a pergunta mais importante talvez não seja:
“Quando essa criança vai falar?”
Mas sim:
“Como podemos garantir que ela seja ouvida hoje?”
Você conhece uma criança autista que apresenta pouca ou nenhuma fala funcional?
Compartilhe este artigo com familiares, professores e profissionais que fazem parte da rede de cuidado.
Às vezes, uma informação simples pode mudar a maneira como uma família compreende a comunicação de uma criança.
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Porque comunicação não é apenas falar. É ter a possibilidade de participar, escolher, expressar-se e ser compreendido.
REFERÊNCIAS
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. American Psychiatric Association Publishing.
American Speech-Language-Hearing Association. Augmentative and Alternative Communication (AAC).
Bondy, A. S., & Frost, L. A. (2001). The Picture Exchange Communication System. Behavior Modification, 25(5), 725–744.
Carr, E. G., & Durand, V. M. (1985). Reducing behavior problems through functional communication training. Journal of Applied Behavior Analysis, 18(2), 111–126.
Cooper, J. O., Heron, T. E., & Heward, W. L. (2020). Applied Behavior Analysis (3rd ed.). Pearson.
Millar, D. C., Light, J. C., & Schlosser, R. W. (2006). The impact of augmentative and alternative communication intervention on the speech production of individuals with developmental disabilities: A research review. Journal of Speech, Language, and Hearing Research, 49(2), 248–264.
Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior. Appleton-Century-Crofts.
Sundberg, M. L., & Partington, J. W. (1998). Teaching Language to Children with Autism or Other Developmental Disabilities. Behavior Analysts, Inc.

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