Quando o Comportamento Está Tentando Dizer Algo
Entenda o que é comunicação funcional no autismo, por que muitos comportamentos são tentativas de comunicação e como a ABA utiliza estratégias baseadas em evidências para desenvolver habilidades comunicativas.
Uma criança que chora ao receber uma demanda, grita quando um brinquedo é retirado ou se joga no chão diante de uma negativa pode estar comunicando algo importante.
Embora esses comportamentos sejam frequentemente interpretados como birra, desobediência ou manipulação, a ciência do comportamento nos convida a fazer uma pergunta diferente:
O que essa criança está tentando comunicar?
Dentro da Análise do Comportamento Aplicada (ABA), compreendemos que todo comportamento possui uma função. Muitas vezes, comportamentos considerados inadequados surgem porque a criança ainda não desenvolveu formas mais eficientes de expressar necessidades, desejos, desconfortos ou emoções.
Nesse contexto, a comunicação funcional torna-se uma das habilidades mais importantes para o desenvolvimento da autonomia, da participação social e da qualidade de vida das pessoas autistas.
O que é comunicação funcional?
A comunicação funcional refere-se ao uso de comportamentos socialmente compreensíveis para expressar necessidades, desejos, sentimentos, opiniões ou informações.
Ela não depende exclusivamente da fala.
Uma pessoa pode comunicar-se funcionalmente através de:
- linguagem oral;
- gestos;
- apontar;
- sinais;
- figuras;
- sistemas de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA);
- dispositivos eletrônicos.
O aspecto mais importante não é a forma da comunicação, mas sua eficácia.
Segundo Bondy e Frost (2001), autores do Sistema de Comunicação por Troca de Figuras (PECS), a comunicação funcional ocorre quando o indivíduo consegue obter resultados socialmente significativos por meio de suas respostas comunicativas.
Comunicação é muito mais do que falar
Um dos maiores mitos sobre o desenvolvimento infantil é acreditar que comunicação e fala são sinônimos.
A fala é apenas uma das formas possíveis de comunicação.
O comportamento verbal, conceito desenvolvido por Skinner (1957), inclui qualquer resposta que produza consequências mediadas por outras pessoas.
Nesse sentido, pedir água apontando para um copo, entregar uma figura ou utilizar um aplicativo comunicativo também são formas legítimas de comunicação.
Como afirmou Skinner:
“O comportamento verbal é comportamento reforçado pela mediação de outras pessoas.”
Essa definição amplia significativamente nossa compreensão sobre linguagem e interação social.
Quando o comportamento se torna uma forma de comunicação
Imagine uma criança que deseja um brinquedo, mas não possui repertório para solicitá-lo.
Ela pode:
- chorar;
- gritar;
- empurrar;
- jogar objetos;
- puxar um adulto pela mão.
Embora esses comportamentos possam parecer inadequados, eles frequentemente produzem resultados.
Se após o choro a criança recebe o brinquedo desejado, esse comportamento pode ser fortalecido ao longo do tempo.
Sob a perspectiva da ABA, compreender essa função é essencial para planejar intervenções eficazes.
O que a pesquisa científica nos mostra?
Carr e Durand (1985), em um estudo clássico da Análise do Comportamento Aplicada, demonstraram que o ensino de habilidades comunicativas funcionais pode reduzir significativamente comportamentos desafiadores.
Os autores concluíram que muitos comportamentos problemáticos ocorriam porque os indivíduos não possuíam formas adequadas de comunicar suas necessidades.
O estudo tornou-se uma das bases para o desenvolvimento do Treino de Comunicação Funcional (Functional Communication Training – FCT), amplamente utilizado até os dias atuais.
Segundo Carr e Durand:
“Problemas de comportamento podem servir a funções comunicativas.”
Essa afirmação transformou a forma como profissionais compreendem comportamentos considerados inadequados.
O que é Treino de Comunicação Funcional (FCT)?
O Treino de Comunicação Funcional é uma intervenção baseada em evidências que busca ensinar formas mais apropriadas de comunicação que cumpram a mesma função do comportamento-problema.
Por exemplo:
Se uma criança grita para pedir ajuda, podemos ensiná-la a:
- dizer “ajuda”;
- apontar para um cartão;
- utilizar uma figura;
- acionar um dispositivo comunicativo.
O objetivo não é apenas reduzir comportamentos desafiadores, mas ampliar a independência e a participação social.
Comunicação funcional e autismo
Dificuldades de comunicação estão entre as características frequentemente observadas no Transtorno do Espectro Autista.
Segundo o DSM-5-TR (APA, 2022), déficits persistentes na comunicação social e na interação social constituem um dos critérios diagnósticos do TEA.
Essas dificuldades podem envolver:
- iniciar interações;
- manter conversas;
- compartilhar interesses;
- compreender regras sociais;
- expressar necessidades de forma eficiente.
Quando não recebem apoio adequado, tais dificuldades podem aumentar níveis de frustração e ansiedade.
Comunicação funcional reduz crises?
Em muitos casos, sim.
Quando a criança aprende formas eficazes de expressar necessidades, diminui a necessidade de recorrer a comportamentos mais intensos.
Entretanto, é importante destacar que nem toda crise ocorre por dificuldades comunicativas.
Aspectos relacionados à ansiedade, sobrecarga sensorial, rigidez cognitiva e fadiga também podem estar envolvidos.
Por isso, a avaliação funcional continua sendo indispensável.
O papel da família
A família desempenha papel fundamental no desenvolvimento da comunicação.
Pequenas oportunidades do cotidiano podem ser transformadas em momentos de aprendizagem.
Algumas estratégias incluem:
- oferecer escolhas;
- incentivar pedidos espontâneos;
- responder às tentativas de comunicação;
- utilizar recursos visuais quando necessário;
- valorizar qualquer forma funcional de comunicação.
Quanto mais oportunidades a criança tiver para comunicar-se com sucesso, maiores serão as chances de desenvolvimento.
O papel da escola
A escola também exerce influência significativa.
Ambientes que valorizam diferentes formas de comunicação favorecem inclusão e participação.
Professores podem contribuir através de:
- apoios visuais;
- adaptações comunicativas;
- rotinas previsíveis;
- incentivo à participação social.
A comunicação não deve ser vista apenas como responsabilidade da terapia, mas como uma habilidade construída em todos os contextos da vida.
Considerações Finais
A comunicação funcional é uma das ferramentas mais importantes para promover autonomia, aprendizagem e qualidade de vida.
Quando compreendemos que muitos comportamentos representam tentativas de comunicação, deixamos de focar apenas na redução de comportamentos considerados inadequados e passamos a ensinar habilidades que realmente ampliam a participação da pessoa no mundo.
A pergunta central deixa de ser:
“Como faço para esse comportamento parar?”
E passa a ser:
“Que habilidade comunicativa essa pessoa precisa aprender?”
Essa mudança de perspectiva transforma não apenas a intervenção, mas também a forma como enxergamos o desenvolvimento humano.
Você já percebeu que alguns comportamentos difíceis surgem justamente quando a criança não consegue expressar o que precisa?
Compartilhe este artigo com familiares, educadores e profissionais que desejam compreender o comportamento de forma mais profunda e baseada em evidências.
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Compreender a função do comportamento é um dos caminhos mais eficazes para promover desenvolvimento e qualidade de vida.
📚 Referências
American Psychiatric Association. (2022). DSM-5-TR: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
Bondy, A., & Frost, L. (2001). The Picture Exchange Communication System.
Carr, E. G., & Durand, V. M. (1985). Reducing Behavior Problems Through Functional Communication Training.
Cooper, J. O., Heron, T. E., & Heward, W. L. (2020). Applied Behavior Analysis (3rd ed.).
Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior.
Sundberg, M. L., & Partington, J. W. (1998). Teaching Language to Children with Autism or Other Developmental Disabilities.