Durante muitos anos, comportamentos considerados “adequados socialmente” foram vistos como um dos principais objetivos das intervenções no autismo. Entretanto, pesquisas mais recentes têm chamado a atenção para um fenômeno importante: o mascaramento autista, também conhecido pelo termo em inglês masking.
Embora a capacidade de adaptação social possa trazer benefícios em determinados contextos, esconder características autistas constantemente pode gerar sofrimento emocional significativo.
Mas afinal, o que é masking? Como ele acontece? E quais são seus impactos para a saúde mental das pessoas autistas?
O que é mascaramento no autismo?
O mascaramento refere-se ao esforço consciente ou inconsciente de esconder, modificar ou compensar características associadas ao autismo para parecer mais alinhado às expectativas sociais.
Segundo Hull et al. (2017), o masking envolve estratégias utilizadas para reduzir a visibilidade de traços autistas em contextos sociais.
Isso pode incluir:
- Imitar expressões faciais;
- Ensaiar conversas mentalmente;
- Copiar comportamentos de colegas;
- Forçar contato visual;
- Esconder estereotipias;
- Suprimir interesses específicos;
- Monitorar constantemente o próprio comportamento.
Em muitos casos, essas estratégias são aprendidas ao longo da vida como forma de evitar críticas, rejeição ou exclusão social.
Por que pessoas autistas mascaram seus comportamentos?
O ser humano é um organismo social.
Segundo Skinner (1953), grande parte dos comportamentos humanos é influenciada pelas contingências sociais presentes no ambiente.
Quando determinados comportamentos recebem reforçamento social positivo e outros são punidos ou criticados, existe uma tendência natural de adaptação.
No caso das pessoas autistas, experiências repetidas de:
- Correção constante;
- Bullying;exclusão;
- Rejeição social;
- Incompreensão;
podem favorecer o desenvolvimento de estratégias de mascaramento.
Em termos analítico-comportamentais, o masking pode ser compreendido como um conjunto de respostas mantidas por contingências sociais de reforçamento e esquiva.
O masking é sempre consciente?
NÃO.
Esse é um ponto importante.
Embora algumas pessoas relatem esforço deliberado para esconder características autistas, outras descrevem o mascaramento como algo que se tornou automático ao longo dos anos.
Hull et al. (2020) destacam que muitas estratégias de compensação social podem ocorrer sem plena consciência do indivíduo.
Por isso, nem sempre a pessoa percebe o quanto está investindo energia para parecer “neurotípica”.
Quais sinais podem indicar mascaramento?
Alguns comportamentos frequentemente relatados incluem:
- exaustão após interações sociais;
- necessidade intensa de isolamento após eventos sociais;
- ansiedade em situações de convivência;
- medo excessivo de cometer erros sociais;
- sensação de estar “atuando”;
- dificuldade em identificar a própria identidade;
- supressão constante de estereotipias.
É importante destacar que esses sinais não confirmam, por si só, a presença de masking, mas podem indicar a necessidade de avaliação mais aprofundada.
O impacto emocional do mascaramento
Nos últimos anos, diversos estudos têm associado o masking ao aumento de dificuldades emocionais.
Pesquisas conduzidas por Cage e Troxell-Whitman (2019) sugerem que o mascaramento frequente pode estar relacionado a:
- ansiedade;
- estresse crônico;
- baixa autoestima;
- esgotamento emocional;
- sintomas depressivos.
Hull et al. (2017) observaram que muitas pessoas autistas descrevem a experiência de mascarar características como extremamente cansativa.
Uma participante do estudo afirmou:
“É como atuar o tempo inteiro.”
Embora essa frase represente a experiência individual da participante e não de todas as pessoas autistas, ela ilustra o desgaste frequentemente relatado.
O masking e as mulheres autistas
A literatura aponta que o mascaramento pode ser particularmente frequente entre meninas e mulheres autistas.
Lai et al. (2017) sugerem que expectativas sociais relacionadas ao comportamento feminino podem favorecer estratégias mais intensas de compensação social.
Essa é uma das hipóteses que ajudam a explicar por que algumas mulheres recebem diagnóstico apenas na adolescência ou na vida adulta.
Entretanto, o masking pode ocorrer em qualquer pessoa autista, independentemente do sexo ou gênero.
O que a ABA contemporânea diz sobre isso?
Historicamente, algumas intervenções priorizavam a redução de comportamentos considerados socialmente inadequados.
Atualmente, a ABA baseada em evidências tem ampliado seu foco para qualidade de vida, autonomia e participação social.
A pergunta central deixou de ser:
“Como fazer a pessoa parecer menos autista?”
E passou a ser:
“Como promover habilidades que aumentem autonomia, bem-estar e acesso ao ambiente?”
Essa mudança está alinhada aos princípios éticos contemporâneos da Análise do Comportamento Aplicada.
O objetivo da intervenção não deve ser eliminar características que não causam prejuízo, mas ampliar repertórios que favoreçam a independência e a qualidade de vida.
Como apoiar uma pessoa autista sem incentivar o mascaramento excessivo?
Algumas estratégias importantes incluem:
- promover ambientes acolhedores;
- respeitar diferenças individuais;
- validar formas alternativas de comunicação;
- compreender funções dos comportamentos;evitar exigências sociais desnecessárias;
- ensinar habilidades sem exigir perda de identidade.
Em muitos casos, a aceitação do indivíduo reduz a necessidade de esconder quem ele é.
Considerações Finais
O mascaramento no autismo é um fenômeno complexo que tem recebido crescente atenção da comunidade científica.
Embora possa facilitar a adaptação em alguns contextos, o esforço constante para esconder características autistas pode gerar importantes custos emocionais.
A compreensão desse fenômeno nos convida a refletir sobre uma questão fundamental:
Será que a inclusão significa ensinar a pessoa autista a parecer menos autista?
Ou significa construir ambientes capazes de acolher diferentes formas de ser, comunicar e interagir?
A resposta a essa pergunta influencia diretamente a forma como entendemos desenvolvimento, inclusão e qualidade de vida.
Você já tinha ouvido falar sobre mascaramento no autiso?
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Quanto mais compreendemos o autismo, mais construímos ambientes verdadeiramente inclusivos.
📚 REFERÊNCIAS
American Psychiatric Association. (2022). DSM-5-TR: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
Cage, E., & Troxell-Whitman, Z. (2019). Understanding the Reasons, Contexts and Costs of Camouflaging for Autistic Adults.
Hull, L., Petrides, K. V., Allison, C., et al. (2017). “Putting on My Best Normal”: Social Camouflaging in Adults with Autism Spectrum Conditions.
Hull, L., Mandy, W., & Lai, M. C. (2020). Development and Validation of the Camouflaging Autistic Traits Questionnaire (CAT-Q).
Lai, M. C., Lombardo, M. V., Auyeung, B., et al. (2017). Sex/Gender Differences and Autism: Setting the Scene for Future Research.
Skinner, B. F. (1953). Science and Human Behavior. New York: Macmillan.
Skinner, B. F. (1974). About Behaviorism. New York: Knopf. :::
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