O Que Significa e Quais São as Possibilidades de Desenvolvimento?
Quando pensamos em comunicação, a primeira imagem que nos vem à mente é a da fala oral. No entanto, no universo do Transtorno do Espectro Autista (TEA), a comunicação se manifesta de formas muito mais amplas. O termo “autismo não verbal” é frequentemente utilizado para descrever indivíduos que não utilizam a fala falada como seu principal meio de interação.
Mas o que isso realmente significa? E, mais importante, quais são os caminhos e possibilidades para que essas pessoas se desenvolvam e conquistem autonomia?
O que significa ser “Não Verbal”?
Ao contrário do que o senso comum sugere, ser não verbal não significa viver em absoluto isolamento ou não ter nada a dizer. Significa apenas que a via motora e neurológica da fala não é o canal funcional daquele indivíduo.
Estima-se que cerca de 25% a 30% das crianças com autismo sejam não verbais ou tenham uma fala mínima (pouco funcional). É fundamental compreender que a ausência de fala não é sinônimo de ausência de inteligência ou de desejo de interagir. Como aponta a renomada pesquisadora e terapeuta Dra. Mary Lynch Barbera em sua literatura sobre o comportamento verbal:
“Uma criança que não fala ainda tem a capacidade de aprender a se comunicar. Nosso trabalho é descobrir a melhor maneira de acessar essa comunicação.” (Barbera, 2007, citação traduzida).
O Comportamento Desafiador como Grito de Socorro
Uma das maiores dores de um indivíduo não verbal é a frustração de não ser compreendido. Quando uma pessoa não consegue expressar que está com dor, com fome, cansada ou que deseja um brinquedo, o ambiente se torna hostil.
Nesse cenário, surgem os chamados comportamentos desafiadores (crises, choros, autoagressão ou agressividade). Dentro da Análise do Comportamento Aplicada (ABA), entende-se que todo comportamento tem uma função. Se a pessoa não tem palavras ou símbolos, o comportamento desafiador passa a ser a sua única ferramenta de comunicação.
Quando oferecemos uma forma funcional de comunicação, esses comportamentos tendem a reduzir drasticamente, pois a pessoa finalmente passa a ser ouvida sem precisar recorrer a uma crise.
Possibilidades de Desenvolvimento: O Poder da CAA
O desenvolvimento de um indivíduo autista não verbal depende diretamente de intervenções precoces, baseadas em evidências e focadas na Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA).
Ao contrário do mito popular de que a CAA “preguiça” a mente e impede o surgimento da fala, a ciência demonstra o oposto. A introdução de ferramentas alternativas serve como um andaime que apoia e, muitas vezes, impulsiona a fala oral.
As principais portas de entrada para o desenvolvimento são:
1. O Sistema PECS (Troca de Figuras)
O PECS (Picture Exchange Communication System) é amplamente utilizado por ensinar algo crucial: a iniciativa social. Em vez de apenas responder ao adulto, a criança aprende a pegar uma figura e entregá-la a outra pessoa para conseguir o que quer, estabelecendo uma troca social genuína.
2. Sistemas de Alta Tecnologia (Aplicativos de Voz)
Com o avanço tecnológico, o uso de tablets com aplicativos baseados em robustez linguística (como o Proloquo2Go ou o Livox) revolucionou a vida de autistas não verbais. Ao tocar em símbolos, o aparelho reproduz a voz digitalizada, dando ao indivíduo uma “voz automática” imediata.
3. O Treino de Comunicação Funcional (FCT)
De acordo com os analistas do comportamento Tiger, Hanley e Bruzek (2008), o Treino de Comunicação Funcional é uma das intervenções mais eficazes para a substituição de comportamentos severos. O FCT consiste em identificar o que mantém o comportamento desafiador e ensinar uma resposta comunicativa equivalente (um gesto, um cartão ou uma palavra) para substituí-lo.
O Futuro é a Autonomia
O prognóstico e as possibilidades de desenvolvimento para o autista não verbal são vastos. Muitos indivíduos que iniciam sua jornada pedagógica e terapêutica sem emitir sons vocalizados tornam-se adultos extremamente independentes, capazes de estudar, trabalhar e expressar pensamentos complexos através de teclados, computadores e pranchas dinâmicas.
A comunicação é um direito humano básico. Olhar para o autismo não verbal não é focar na limitação da boca que não fala, mas sim abrir os olhos para as infinitas possibilidades de uma mente que deseja se conectar com o mundo.
Referências Bibliográficas
- BARBERA, Mary Lynch; RASMUSSEN, Tracy. The Verbal Behavior Approach: How to Teach Children with Autism and Related Disorders. Jessica Kingsley Publishers, 2007.
- BONDY, Andrew; FROST, Lori. The Picture Exchange Communication System (PECS). Behavior Modification, v. 25, n. 5, p. 725-744, 2001.
- TIGER, Jeffrey H.; HANLEY, Gregory P.; BRUZEK, Jennifer Progar. Functional Communication Training: A Review and Practical Guide. Behavior Analysis in Practice, v. 1, n. 1, p. 16–23, 2008.
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