Você já tinha parado para pensar que um mesmo comportamento pode ter funções diferentes?
Entenda como a análise funcional ajuda a identificar as variáveis relacionadas aos comportamentos no autismo e a desenvolver intervenções baseada em ABA

Compreender o comportamento é o primeiro passo para ensinar novas possibilidades.
“Ele faz isso para chamar atenção.”
“Ela bate porque é contrariada.”
“Ele grita porque quer conseguir o que quer.”
Essas explicações são bastante comuns quando familiares e profissionais tentam compreender comportamentos considerados difíceis.
Mas existe uma pergunta mais importante do que simplesmente “o que essa criança está fazendo?”:
“O que está acontecendo antes e depois desse comportamento?”
É justamente nesse ponto que a Análise do Comportamento oferece uma contribuição fundamental.
Na perspectiva analítico-comportamental, o comportamento não é analisado de maneira isolada. É necessário observar sua relação com o ambiente, considerando antecedentes, respostas comportamentais e consequências.
No contexto do Transtorno do Espectro Autista (TEA), essa compreensão pode ser especialmente importante quando a pessoa apresenta comportamentos que interferem na aprendizagem, na comunicação, na autonomia ou na participação social.
A análise funcional busca identificar relações entre o comportamento e as variáveis ambientais que podem estar contribuindo para sua ocorrência e manutenção.
O que significa analisar funcionalmente um comportamento?
A palavra “função” é central na Análise do Comportamento.
Quando falamos em função, estamos interessados nas consequências que historicamente podem ter contribuído para manter determinado comportamento.
Isso significa que duas pessoas podem apresentar comportamentos visualmente semelhantes, mas por razões funcionais diferentes.
Imagine duas crianças que gritam.
Uma pode gritar porque deseja obter um brinquedo.
Outra pode gritar porque deseja escapar de uma atividade difícil.
A topografia é semelhante:
gritar.
Mas a função pode ser diferente.
E, se a função é diferente, a intervenção também precisa ser diferente.
A tríplice contingência: antecedente, comportamento e consequência
Um dos modelos fundamentais para compreender o comportamento operante é a chamada tríplice contingência.
Ela envolve:
A — Antecedente
O que acontece antes do comportamento?
B — Behavior (comportamento)
O que exatamente a pessoa faz?
C — Consequência
O que acontece imediatamente depois?
Esse modelo é frequentemente representado como:
A → B → C
Por exemplo:
Antecedente: a mãe pede para guardar o tablet.
Comportamento: a criança grita e joga o tablet no sofá.
Consequência: a mãe desiste temporariamente da solicitação.
Se situações semelhantes se repetirem, precisamos investigar se a retirada ou adiamento da demanda está contribuindo para a manutenção daquele comportamento.
Perceba que isso é diferente de afirmar:
“A criança fez isso porque é desobediente.”
A primeira explicação descreve uma relação comportamental que pode ser investigada.
A segunda atribui uma característica à criança sem explicar as variáveis que estão mantendo o comportamento.
As funções mais frequentemente investigadas
Na literatura analítico-comportamental, algumas funções aparecem com frequência na análise de comportamentos-problema.
Entre elas estão:
1. Acesso a atenção social
O comportamento pode produzir atenção de adultos ou outras pessoas.
Por exemplo:
- olhar;
- falar com a criança;
- aproximar-se;
- tentar interromper o comportamento.
2. Acesso a itens ou atividades
O comportamento pode produzir acesso a algo desejado.
Por exemplo:
- brinquedo;
- alimento;
- celular;
- atividade preferida.
3. Fuga ou esquiva
O comportamento pode resultar na retirada, adiamento ou redução de uma situação aversiva ou de uma demanda.
Por exemplo:
- tarefa escolar;
- atividade terapêutica;
- situação social;
- estímulo desagradável.
4. Reforçamento automático
Em alguns casos, o comportamento pode produzir consequências reforçadoras diretamente relacionadas à própria atividade, sem depender necessariamente da mediação social.
Essa categoria exige avaliação cuidadosa e não deve ser utilizada simplesmente porque não identificamos imediatamente uma consequência social.
“Então todo comportamento tem uma função?”
Na Análise do Comportamento, buscamos compreender o comportamento em termos de suas relações funcionais com o ambiente.
Mas isso não significa que devemos presumir automaticamente uma função.
É justamente aí que entra a avaliação.
Uma hipótese funcional precisa ser construída a partir de informações sistemáticas sobre o comportamento e seu contexto.
A literatura sobre análise funcional mostra que essa metodologia possui forte tradição empírica, especialmente desde os trabalhos de Iwata e colaboradores sobre comportamentos autolesivos. Revisões históricas recentes destacam a análise funcional experimental como uma das contribuições metodológicas mais importantes da Análise do Comportamento para a compreensão de comportamentos desafiadores.
Avaliação funcional não é exatamente a mesma coisa que análise funcional
Os termos são frequentemente utilizados como sinônimos, mas não são necessariamente equivalentes.
Avaliação funcional
Pode envolver diferentes procedimentos para levantar hipóteses sobre as variáveis relacionadas ao comportamento.
Podemos utilizar:
- entrevista;
- observação direta;
- registro ABC;
- análise de documentos;
- coleta de dados;
- instrumentos e procedimentos específicos.
Análise funcional experimental
Envolve manipulação sistemática de variáveis ambientais para avaliar experimentalmente quais condições estão relacionadas à ocorrência do comportamento.
Ela possui uma tradição importante na pesquisa comportamental, desde os trabalhos de Iwata e colaboradores.
Por isso, nem toda avaliação funcional é uma análise funcional experimental.
Essa distinção evita que o termo “análise funcional” seja utilizado de maneira excessivamente ampla.
O famoso registro ABC
Um recurso bastante utilizado na prática clínica e educacional é o registro ABC.
Ele permite organizar informações sobre:
A — Antecedente
O que aconteceu imediatamente antes?
B — Comportamento
O que a pessoa fez, de maneira observável e mensurável?
C — Consequência
O que aconteceu imediatamente depois?
Por exemplo:
| A — Antecedentes | B — Comportamento | C — Consequência |
| Terapeuta apresenta tarefa | Criança grita e empurra materiais | Tarefa é retirada temporariamente |
| Celular é retirado | Criança chora e tenta pegar o aparelho | Celular é devolvido |
| Adulto conversa com outra pessoa | Criança bate na mesa | Adulto direciona atenção para ela |
Esses registros não determinam sozinhos a função do comportamento.
Eles ajudam a identificar padrões que podem orientar hipóteses e decisões clínicas.
Por que “comportamento para chamar atenção” pode ser uma explicação insuficiente?
Porque “chamar atenção” descreve uma possível consequência, mas não necessariamente explica todo o fenômeno.
Imagine uma criança que grita quando o terapeuta apresenta uma atividade.
Se o terapeuta imediatamente conversa com ela, podemos observar atenção após o comportamento.
Mas também precisamos investigar:
- A tarefa foi retirada?
- A criança recebeu ajuda?
- A atividade foi modificada?
- O comportamento ocorre com outras demandas?
- O comportamento acontece quando não há demanda?
- Existe histórico de reforçamento semelhante?
A análise funcional exige dados, não apenas impressão clínica.
O comportamento pode estar comunicando alguma coisa?
Sim.
Uma criança pode aprender que determinados comportamentos produzem resultados importantes.
Por exemplo:
“Quando eu grito, alguém me entrega o que quero.”
Se essa relação se estabelece repetidamente, o comportamento pode tornar-se mais provável em situações semelhantes.
Nesse contexto, uma intervenção baseada em ABA pode ensinar uma resposta comunicativa alternativa que produza uma consequência funcionalmente equivalente.
É justamente a lógica do Treino de Comunicação Funcional (FCT).
Carr e Durand (1985) foram pioneiros nesse campo, demonstrando que ensinar formas alternativas de comunicação pode reduzir comportamentos-problema relacionados a determinadas funções.
Pesquisas posteriores continuam encontrando suporte para o FCT, embora também apontem desafios relacionados à generalização, manutenção e implementação em ambientes naturais.
Uma meta-análise publicada em 2025, envolvendo 34 estudos de caso único e 79 crianças autistas de 2 a 8 anos, encontrou efeitos grandes na redução de comportamentos desafiadores e efeitos moderados a grandes no aumento de respostas comunicativas alternativas; os autores, porém, destacaram limitações metodológicas e a necessidade de mais pesquisas sobre manutenção, generalização e implementação por familiares.
E depois de descobrir a função?
Aqui está uma das partes mais importantes.
Identificar a função não é o objetivo final.
A informação deve orientar uma intervenção.
Por exemplo:
Se determinado comportamento ocorre para obter acesso a um item, podemos ensinar uma forma apropriada de solicitar esse item.
Se ocorre para escapar de uma demanda, podemos ensinar comunicação funcional para pedir ajuda ou pausa, além de avaliar a própria demanda e as habilidades necessárias para realizá-la.
Se ocorre em busca de atenção, podemos ensinar formas socialmente adequadas de iniciar interação.
O objetivo não deve ser simplesmente:
“fazer o comportamento desaparecer”.
O objetivo é ampliar o repertório comportamental da pessoa.
Por que ensinar um comportamento alternativo é tão importante?
Imagine uma criança que aprendeu a gritar para pedir ajuda.
Se simplesmente retirarmos o grito sem ensinar outra resposta, deixaremos uma lacuna.
Ela continua precisando de ajuda.
Por isso, uma intervenção funcionalmente orientada deve considerar:
Qual habilidade podemos ensinar para que a criança consiga produzir o mesmo resultado de maneira mais eficiente e socialmente adequada?
Pode ser:
- “ajuda”;
- apontar;
- entregar uma figura;
- utilizar CAA;
- solicitar “pausa”;
- pedir “mais”;
- indicar “não quero”.
Essa lógica é coerente com a compreensão comportamental de que ensinar é construir repertórios, e não apenas eliminar respostas.
A análise funcional significa culpar a família?
De maneira alguma.
Esse é outro equívoco que precisa ser evitado.
Analisar contingências não significa procurar um culpado.
Pais, professores e terapeutas também estão inseridos nas contingências.
Quando um adulto entrega um celular após uma crise, por exemplo, isso não significa automaticamente que ele “estragou” a criança ou que agiu de maneira inadequada.
É preciso compreender o contexto.
Talvez naquele momento a família estivesse tentando interromper uma crise intensa.
Talvez houvesse cansaço.
Talvez existisse risco de agressão.
Talvez aquela fosse a única estratégia disponível naquele momento.
A análise do comportamento deve servir para compreender e construir alternativas, e não para culpabilizar.
E no autismo?
No TEA, a análise funcional pode contribuir para compreender comportamentos como:
- agressividade;
- autoagressão;
- fuga de demandas;
- gritos;
- destruição de objetos;
- comportamentos de oposição;
- episódios de intensa desregulação;
- dificuldades durante transições.
Mas é fundamental lembrar:
nem todo comportamento intenso é necessariamente um comportamento-problema que precisa ser eliminado.
Alguns comportamentos podem ser formas de comunicação, autorregulação ou expressão de desconforto.
A pergunta clínica deve ser:
Esse comportamento está colocando a pessoa em risco, restringindo significativamente sua participação ou impedindo a aquisição de habilidades importantes?
Essa análise ajuda a evitar intervenções desnecessárias sobre comportamentos que não precisam ser suprimidos.
O que a análise funcional NÃO é
A análise funcional não é:
❌ adivinhar a intenção da criança;
❌ rotular o comportamento como “manipulação”;
❌ atribuir o comportamento à personalidade;
❌ procurar culpados;
❌ tentar eliminar todo comportamento diferente;
❌ observar uma única ocorrência e tirar uma conclusão definitiva.
Ela é um processo sistemático de investigação das relações entre comportamento e ambiente.
Considerações Finais
Compreender o comportamento é muito diferente de simplesmente descrevê-lo.
Dizer:
“Ele grita.”
é uma descrição.
Perguntar:
“Em quais situações ele grita, o que acontece antes, o que acontece depois e quais consequências podem estar mantendo esse comportamento?”
é começar uma investigação funcional.
Na prática clínica, essa mudança de perspectiva pode transformar completamente a intervenção.
Em vez de perguntar apenas:
“Como fazer esse comportamento parar?”
podemos perguntar:
“Que função esse comportamento está cumprindo e que habilidade podemos ensinar para que a pessoa tenha uma alternativa mais eficiente?”
É nessa mudança de pergunta que a Análise do Comportamento demonstra uma de suas maiores contribuições para o cuidado de pessoas autistas.
📚 Referências
CARR, E. G.; DURAND, V. M. Reducing behavior problems through functional communication training. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 18, n. 2, p. 111–126, 1985.
COOPER, J. O.; HERON, T. E.; HEWARD, W. L. Applied Behavior Analysis. 3. ed. Hoboken: Pearson, 2020.
DURAND, V. M.; CARR, E. G. Functional communication training to reduce challenging behavior: maintenance and application in new settings. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 24, n. 2, p. 251–264, 1991.
HANLEY, G. P.; IWATA, B. A.; MCCORD, B. E. Functional analysis of problem behavior: a review. Journal of Applied Behavior Analysis, 2003.
IWATA, B. A. et al. Toward a functional analysis of self-injury. Journal of Applied Behavior Analysis, 1982/1994.
SKINNER, B. F. Science and Human Behavior. New York: Macmillan, 1953.
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