
Comportamentos intensos em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) são frequentemente descritos como “crises”. Esses episódios podem envolver choro intenso, gritos, agressividade, autoagressão ou fuga de situações.
Do ponto de vista clínico, no entanto, é fundamental deslocar o olhar da forma do comportamento para sua função.
Mais do que “o que a criança faz”, interessa compreender por que ela faz.
Crise não é apenas birra: uma distinção necessária
Embora, na linguagem cotidiana, comportamentos intensos sejam frequentemente rotulados como “birra”, essa classificação pode ser imprecisa e, muitas vezes, inadequada no contexto do TEA.
O DSM-5-TR descreve que indivíduos com autismo podem apresentar dificuldades significativas na regulação emocional, rigidez comportamental e respostas intensas a mudanças ou estímulos sensoriais.
Assim, o comportamento intenso pode estar relacionado a:
- sobrecarga sensorial;
- dificuldade de comunicação;
- frustração;
- quebra de rotina;
- demanda excessiva;
- tentativa de obter ou evitar algo.
A perspectiva da Análise do Comportamento
Na abordagem analítico-comportamental, fundamentada nos estudos de B. F. Skinner, o comportamento é compreendido como função de variáveis ambientais.
Skinner descreve que “o comportamento é selecionado por suas consequências”, ou seja, ele tende a se repetir quando produz algum efeito no ambiente.
Nesse sentido, uma “crise” pode estar sendo mantida por diferentes funções, como:
- obter atenção;
- acesso a itens ou atividades;
- fuga ou esquiva de demandas;
- autorregulação sensorial.
Sem identificar a função, qualquer tentativa de manejo tende a ser superficial.
Análise funcional: o que vem antes e depois
A análise funcional do comportamento busca identificar relações entre:
- Antecedentes (o que acontece antes);
- Comportamento (o que a criança faz);
- Consequências (o que acontece depois).
Esse modelo é conhecido como análise ABC.
Exemplo clínico 1:
- Antecedente: mudança inesperada na rotina
- Comportamento: choro intenso e agressividade
- Consequência: retirada da demanda
Nesse caso, o comportamento pode estar sendo mantido por fuga da situação.
Exemplo 2:
Antecedente: Antes do choro, João avistou o sorveteiro. Esse estímulo despertou nele o desejo pelo sorvete.
Comportamento: João começar a chorar e a apontar para o carrinho.
Consequência: para evitar mais choro, a mãe comprou o sorvete.
Percebe o detalhe?
Sem intenção… o ambiente pode estar ensinando que “entrar em crise resolve”.
Principais funções dos comportamentos intensos
Com base na literatura comportamental, especialmente em autores como Brian Iwata, quatro funções são frequentemente identificadas:
- Atenção social
- Acesso a tangíveis
- Fuga/esquiva
- Estimulação sensorial automática
Cada função exige uma estratégia diferente.
O papel da comunicação nas crises
Muitas crises estão diretamente relacionadas a déficits de comunicação.
Quando a criança não consegue expressar:
- o que quer;
- o que sente;
- o que a incomoda;
o comportamento passa a cumprir essa função.
Como apontam estudos de Catherine Lord, dificuldades na comunicação social são centrais no TEA, o que reforça a necessidade de ensino de comunicação funcional.
O exemplo 2 da “Análise funcional: o que vem antes e depois”, também é exemplo do papel da comunicação, no exemplo a criança não sabe falar o que quer, usou o choro para se comunicar.
Estratégias para manejo de comportamentos intensos
O manejo eficaz não ocorre apenas no momento da crise — ele começa antes.
1. Prevenção (sempre o primeiro passo)
- manter rotina estruturada;
- antecipar mudanças;
- reduzir demandas excessivas;
- identificar gatilhos;
- utilizar apoio visual.
2. Ensino de habilidades alternativas
Se o comportamento tem função, é necessário ensinar outra forma de obter o mesmo resultado.
Exemplo:
- substituir choro → por pedido funcional (verbal ou gestual)
3. Uso adequado do reforço
Comportamentos adequados devem ser reforçados de forma consistente.
Aqui entra novamente o princípio skinneriano:
comportamentos reforçados tendem a aumentar.
4. Manejo durante a crise
Durante o episódio:
- manter ambiente seguro;
- reduzir estímulos;
- evitar excesso de verbalização;
- não reforçar inadvertidamente o comportamento (quando possível);
- aguardar redução da intensidade antes de intervir.
5. Pós-crise: momento de ensino
Após a regulação:
- retomar a situação de forma estruturada;
- ensinar resposta alternativa;
- reforçar comportamentos adequados.
É aqui que a intervenção realmente acontece.
O papel do ambiente e da família
A consistência nas respostas do ambiente é determinante.
Quando diferentes adultos respondem de formas distintas ao mesmo comportamento, há aumento da variabilidade e manutenção das crises.
A orientação parental, portanto, é parte essencial do processo terapêutico.
Considerações Finais
Comportamentos intensos no autismo não são aleatórios, nem “sem sentido”. Eles comunicam algo — ainda que de forma disfuncional.
Ao compreender a função do comportamento, é possível sair de um manejo reativo e construir intervenções mais eficazes, éticas e consistentes.
No fim, a pergunta deixa de ser:
“como parar a crise?”
e passa a ser:
“o que esse comportamento está tentando resolver?”